quinta-feira, 28 de junho de 2018

8º PERÍODO: HISTÓRIA DA FILOSOFIA NO BRASIL




PEQUENOS ESTUDOS DE FILOSOFIA BRASILEIRA


CAPÍTULO 10 







   
       


  
     DE ALVARO VIEIRA PINTO ¹


Álvaro Vieira Pinto

Em sua obra Consciência e realidade Nacional, a motivação dominante de Alvaro Vieira Pinto (1960), foi o estudo do binômio consciência ingênua - consciência crítica.  Na primeira colocação, o termo designa as tentativas que vão desvelando na vivencia dos países subdesenvolvidos na consciência ingênua; já no segundo binômio há uma pretensão de significar as tarefas que se propõe o pensador brasileiro, de tentar inverter os modos processuais compreensíveis do ser em países periféricos.  

Vejamos abaixo um esquema dessa articulação entre o binômio ingênuo x critico:


Este apelo ao radicalismo do enunciado, teve como forma de buscar um quadro de categorias de pensamentos cartesianos e husserliano, para modificar a forma absoluta nas perspectivas existenciais da população do “terceiro mundo”.  Vieira Pinto, manteve sinais de semelhanças e atitudes com Descartes e Husserl, para realizar análises críticas como a denominada consciência ingênua, que vai chegando aos requintes da impiedade em relação as vigências intelectuais nacionais, cujos atores são fáceis de identificar.  As atitudes radicais combinam  na ideia de aceitarmos a inteira responsabilidade pelo modo interpretativo da nossa realidade, que continuamos a orbitar no conjunto entre países avançados do mundo.  Somos vítimas na medida em que estes sempre nos exploram enquanto colonizadores desta nação.  

Vieira Pino não cita qualquer filósofo! Tanto que ignorou, solenemente em seu discurso a tradição ocidental filosófica, isto para tentar construir seu discurso original o máximo possível.  Seu leque de meditações deu abertura a vários campos para manipular os pensamentos das consciências.   No discurso teleológico, se configurou na ideia de desenvolvimento.  Combateram constantemente, as “dissertações acadêmicas”, algo por ele tratado por certo desprezo.  Esse fato talvez fosse explicado pelas circunstancias de Vieira Pinto, ter suas dedicações nas instancias mais fecundas de sua vida nas dissertações acadêmicas junto as exigibilidades da cátedra universitária.


Ao abandonar as ilusões da cátedra o autor procurou se dedicar totalmente em pensar no desenvolvimento nacional em seu momento histórico que suscitava ao debate.  Para o autor na fase de convívio de um professor Catedrático da Faculdade Nacional de Filosofia, ao momento de um não menos convicto pensador, não de uma realidade brasileira que ele pouco conhecia, mas de realidade nacionalista, como categoria para ser tema radical de seus debates. Aliás, fazer filosofia num país subdesenvolvido seria tomar a realidade natural como proto-história dentro das estruturas categóricas que dela vão emergir, e isto, abandonando todos os modelos de pensamentos que não sejam referidos a esta realidade crua.  A necessidade de colocar “entre parênteses” os artifícios filosófico-científicos, pois engendrados até hoje os temos em centros dominantes e o modelo original seria conceber a nossa realidade a partir do que é em si mesma.  Algo que deve passar pelo crivo depurativo com intermediação constante de atitudes sensórias. 


- Vejamos o que o que diz nosso pensador, sobre o país subdesenvolvido:

A filosofia da existência seria a mais perigosa de todas, se não for previamente submetida aos radicais de depurações, que as limpe de todos os traços alienados, indicando condicionamentos pela periferia regional.  Nas proposições referidas entre as peculiaridades momentâneas na história do país, o que é pertencente ao filósofo é essa situação encontrada na estrutura de sociedade (Pinto, 1960, p. 66).


A RESPONSABILIDADE DO FILÓSOFO NO PAÍS SUBDESENVOLVIDO
A proposta de censura estatal não fica explícita, mas denota uma responsabilidade do filósofo do país subdesenvolvido.  Sua importância terá sempre em vista a pátria com suas necessidades que se partem de um ponto radical reconstrutivo do pensar em “terceiro mundo”. Nessas razões esboçadas, Vieira Pinto se sente muito a vontade para desprezar a tradição filosófica.  Aqui ele não assume compromisso com o universo técnico dessa tradição filosófica, mas parte da reconstrução de radicais da filosofia, que vai ter em vista uma necessidade de reler o subdesenvolvimento e a miséria decorrente dele.

Responda que país é este? Numa necessidade de reler seu subdesenvolvimento e miséria?


Sociedade brasileira, para o autor, atingiu uma etapa de seu processo onde está produzindo uma alteração de sua consciência... (PINTO, 1960, p.11).   Esse processo histórico é difícil perceber o que "alterou a consciência ", na leitura de realidade de tempo.   
Ele pensou em realidade brasileira sem perceber o sentido planetário da ordem econômica social do pensar em sua contemporaneidade.   Neste laboroso esforço de pensarmos em realidade nacional, o pensador é contestado pelo fato de criarmos em nós mesmos uma "interpretação própria".    No sentido hegiliano, significaria recusa a um pensador concreto, mensurando que a negação de um universal, não irá envolver ao nosso pensador possibilidades de recuperações do espírito que irá se integrar a uma realidade.   Essa ideia de totalidade, ainda que fragmentada na vista dos países subdesenvolvidos, implica-se a admissão de faltas, que temos necessidade de convivermos com esta, entre uma forma ou outra, pudesse ser subsumida a nova categoria de sua concretude.  Assim, pensar em países periféricos iria significar uma busca constante para inserir na modernidade, ainda que com a perda de categorias complexas que são próprias, algo inimaginável. 


Em que se  resvala a ideia de consciência em Vieira Pinto?
* Insolipsismo: doutrina segundo a qual só existem, efetivamente, o eu e suas sensações, sendo os outros entes (seres humanos e objetos), como partícipes da única mente pensante, meras impressões sem existência própria .




TRATAMENTO DE CONSCIÊNCIA COMO INSTRUMENTO CODIFICADOR E MENSURADOR

Para nosso pensador, ninguém está imune ao risco de ser considerado ingênuo ou alienado, mesmo tendo uma inteligência aguçada e operante, uma vez que tudo depende da adesão à plenitude da manifestação do ser nacional; manifestação esta que se daria do despertar das massas para a necessidade de superação do estado de subdesenvolvimento. Falar de “consciências incultas” é o mesmo que referir-se a uma forma de alienação abrangente que decorre da ausência de inserção na concretude da realidade nacional.  Esse tratamento da consciência como instrumento codificador ou mensurador dos modos de ser ou dos estágios de postura dos indivíduos frente à realidade nacional não nos permite uma visão técnica da questão.

Consciência ingênua fora da realidade nacional
A consciência ingênua é consciência não aderida e não voltada para o engajamento na realidade nacional. Esta ideia de consciência parece mais uma maneira de fazer proselitismo ideológico. Ou se pensa a realidade nacional e, portanto, o conjunto de circunstâncias que nos revelam a condição de habitantes de um país periférico, ou se adere à vivência ingênua, não importando quais sejam os “graus avançados da consciência” que tenhamos atingido.

Álvaro Vieira Pinto foi um dos relevantes colaboradores da Revista Cultura Políticos, órgão mantido pelo Estado Novo, como instrumento de cooptação dos intelectuais para a sustentação teórica e ornamental da ditadura de Getúlio. E nos primeiros artigos Vieira Pinto é apresentado pela Revista como Professor na Faculdade Nacional de filosofia da Universidade do Brasil, ex-professor de filosofia das Ciências na Universidade do Distrito Federal, médico e cientista, dedicado a estudos e pesquisas de laboratório, em contato incessante com os grandes centros de investigação científica da Capital da República e trabalhando na Fundação Gaffré Guinle do Rio de Janeiro.

Para ele é possível num amplo leque de significações tomarem a ideia de consciência como uma espécie de itinerário que pode nos conduzir à compreensão da realidade nacional. A consciência crítica estaria enquanto domínio da totalidade, destinada a obviar todos os conflitos, ainda que prescindisse das mediações no plano da existência concreta. A consciência crítica quer alterar o mundo, e em grau tão extenso que só ela merece o nome de revolucionária. O erudito, o humanista e o sábio não teriam lugar na ordem da consciência crítica, desde que não voltassem seus olhos para a realidade nacional.

Com isso, nosso pensador fala de uma “intencionalidade da consciência coletiva” afirmando que: A consciência não tem existência em si, independente, destacada da coisa que representa, mas é sempre consciência de algo, tende sempre para aquilo que é a cada instante o seu objeto e se conforma exclusivamente no momento de representá-lo. E a consciência se define pela subjetividade e é, portanto o que determina o sujeito enquanto tal. A fenomenologia é criticada pelo seu “caráter idealista”, responsável pela não admissão da intencionalidade coletiva. Haveria para Vieira Pinto um sujeito coletivo difuso como categoria própria da estratégia de elaboração da ideologia nacional.  Observe, logo abaixo:


O pensador quer encontrar um ponto inquebrantável para o início de uma meditação radical em torno da condição do homem colonizado. Mas não conseguiu avançar, em virtude de ter escolhido o mundo da vida como garantia de um novo saber, em detrimento da subjetividade como lugar da vivenciação originária de toda realidade. E escolhido o caminho da filosofia para pensar o desenvolvimento nacional, acabou por não elucidar nenhuma questão relevante, embora tenha realizado um esforço que se impõe à admiração dos seus contemporâneos.

Nosso filósofo perseguiu a verdade que é fomentada pela intenção de estabelecer um quadro de referência para o desenvolvimento nacional, como verdade absoluta, a partir de um radicalismo reducionista. A verdade em Vieira Pinto está na meta optada, que é o desenvolvimento nacional.


* Universitários responsáveis:
- Maria C. Monteiro;
- Robson Scardua Silveira;
- Gilberto Galdino dos Santos;
- Gilmar Leite.


* Polo: Afonso Cláudio - ES
* Disciplina: História da Filosofia no Brasil
* Professor:  Jorge Augusto da Silva Santos
* Tutor à distancia:  Ricardo Miranda Castro David
* Tutora presencial:  Wanja Verônica Dias Fernandes


Nota ¹ Verdade e consciência em Álvaro Vieira Pinto. Publicado originalmente na Revista Filosófica Brasileira. Rio de Janeiro, UFRJ, 1986, vol. III, nº 1, p. 106 a 112. Referência bibliográfica PINTO, Vieira. (1960). Consciência e realidade nacional. Rio de Janeiro, ISEB, 2 volumes.




Referência bibliográfica:

PINTO, Vieira. (1960). Consciência e realidade nacional. Rio de Janeiro, ISEB, 2 volumes, p. 79 a 85. 






Nenhum comentário:

Postar um comentário